Pensar que algo na vida está sob
nosso controle é tão tolo quanto querer “secar gelo”. O processo de mudança é inevitável,
seja ele de ideia, biológico ou de desejo. Podemos nos valer do conceito de impermanência para nos auxiliar no exercício do desapego, já que ele nos remete ao fato de que tudo está em constante mudança e que não há um pleno controle sob os acontecimentos da vida.
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| A transformação da lagarta em borboleta é um exemplo de impermanência da vida |
Recentemente conversava com uma senhora de 75 anos que relatou detestar a velhice. Ela é uma mulher autônoma que prática atividades físicas regulares, viaja constantemente, mas sente-se infeliz por não conseguir aceitar as mudanças cronológicas em seu corpo, “o corpo já não responde
mais como antes” ela me dizia, e de fato, com o passar dos anos o organismo torna-se outro, demandando da pessoa mudanças comportamentais que sejam condizentes com esse ciclo, além da necessidade de atualização de sua
autoimagem para conseguir (de modo saudável) acompanhar esse novo momento da vida.
No livro “O amor nos tempos do
cólera” de Gabriel Garcia Marquez, Firmina Darza e Florentino Ariza, amam-se
desde a juventude, mas por diversos motivos não puderam estar juntos, após anos
(já na velhice) reencontram-se tendo a oportunidade de viverem esse amor. Nessa
altura da vida eles já não têm deslumbramentos de adolescentes, há uma consciência
de que seus corpos modificaram-se significativamente ao longo dos
anos, no entanto, o desejo existente na juventude permaneceu vivo.
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| Capa do Livro: O amor nos tempos do cólera de Gabriel Garcia Marquez (Fonte: imagens google) |
Creio que esse seja o ponto,
nossa mente é quem (em geral) dita as regras para se ter uma vida saudável e congruente, e
compreender o processo de impermanência pode auxiliar (e muito) nessa etapa, na qual o tempo pode ser um aliado ou um vilão, cabendo a cada um de nós a escolha de qual papel ele
ocupará.
No ocidente as pessoas são criadas para pensar que mudar significa descartar o que é velho, gerando a necessidade de se ter algo
novo, haja vista, o consumo desenfreado e a volatividade das relações afetivas. Desse modo, associa-se o termo mudança com o que é novo e jovem, aumentando assim a dificuldade de aceitação e compreensão de que: nada e ninguém permanecerá eternamente do
mesmo modo.
Hoje temos “velhos-jovens” de 50,
60 anos que vivem de modo inconsequente e desmedido, sem absorverem da vida o seu aprendizado, deixando as futuras gerações 'orfãs' de conselhos e ponderações. Não me entendam mal, fato é que de
nada adianta envelhecer e ficar escondido dentro de casa (vejam o vídeo abaixo) essa não é a
solução, porém, qual o sentido de
se viver longos anos sem alcançar os ensinamentos que a vida pode proporcionar?
Propaganda de uma empresa de telefonia: "perigoso mesmo é ervilha!"
Outro livro que aborda (indiretamente) o tema da
impermanência e da importância de compreendermos que cada ciclo de vida tem sua beleza,
é o “A ciranda das mulheres sábias” da mesma autora de 'Mulheres que correm com os lobos': Clarissa Pinkola Estés. Livro
fininho e de fácil leitura, diz da importância da troca entre diferentes
gerações, de reunirem-se para compartilhar o que têm em abundância conforme o
tempo vivido, sendo a energia da juventude ou a sabedoria da velhice. “Ser jovem
enquanto velha, velha enquanto jovem”, é o subtítulo do livro e bastante
sugestivo, não acham? Ele quer dizer que não há um movimento de exclusão entre
o novo e o antigo, eles são complementares!
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| Capa do livro: A ciranda das mulheres sábias de Clarissa Pinkola Estés (Fonte: imagens google) |
Acredito que
impermanência, consciência de si e aceitação andam de mãos dadas e podem ser
boas escolhas para quem deseja envelhecer com lucidez e sabedoria (seja ainda jovem, ou para quem já alcançou a velhice), caso
contrário, de que nos serve envelhecer?
Por fim, deixo uma frase atribuída ao filósofo Heráclito:
"nada é permanente, exceto a mudança"...
Então, que estejamos disponíveis para as mudanças que a vida nos reserva.
Beijos para tod@s!



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